sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Simplesmente, POESIA...

Quando escrevo poesia proponho-me a converter a magia das palavras em versos aglutinados e vertiginosos. No momento em que escrevo, impera uma descontração que quase se confude com a irracional razão de pensar o que escrever. Mas pergunto-me, será mesmo que estou descontraída, ao ponto de pensar, no acto da criação? Pergunta díficil esta que não ouso responder, preferindo deixá-la no espaço retórico da minha mente. Apenas sei que naquele momento em que me proponho cantar por estrofes o que cá dentro vai em tumulto, sou livre. Sou tão livre, que vejo no sublime encanto da pura inquietude um mar extenso, envolto na onda perdida daquele manto feito poema. Sou tão livre que me perco na irrealidade desta janela e finto a imensidão horizontal do mar que se transfigura na contenda da escrita. Por momentos, a rocha eclode e as rimas suportam o peso de falarem por gritos um silêncio vago. Eis que surge o verso, a estrofe, o poema. Em menos de um minuto consigo oscilar entre o choro e a alegria, entre o amor e a dor, entre a realidade e o imaginário. E vêm-me à memória as palavras de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a pensar que é dor/ A dor que deveras sente.”
Mas, Serei eu fingimento arremessado/ Nas entrelinhas descritas/ Por tão ilustre poeta finado?/ Serei eu mentira nas palavras escritas/ Com o fulgor expirado/ Em tantas premissas aflitas?/ Serei eu nexo descordenado/ De privações malditas/ Por meu coração libertado?/ Serei eu vontade que gritas/ No percurso exasperado/ Destas chamas circunscritas?
Não sei! Umas vezes talvez sim, outras talvez não. No dia do lançamento do livro “O dia antes da eternidade”, Joana Aguiar, a autora do mesmo, disse algo do género: “Não escrevo tudo o que sinto, mas sinto tudo o que escrevo.” Acho que esta frase encerra em si muito da relação poeta-poema. Muitas vezes, esta relação é dominada por um estado de permanente contradição, onde a incerteza reage em cada verso desenhado e não sabemos se escrevemos o que sentimos ou simplesmente sentimos o que escrevemos. Já Luís de Camões dizia: "Tanto de meu estado me acho incerto,/ Que em vivo ardor tremendo estou de frio;/ Sem causa, juntamente choro e rio;/ O mundo todo abarco e nada aperto."
Pois é amigos, a poesia desenha-se na afirmação impensável de ser uma contradição por contrariar! Desenhou-a assim Camões e defendo-a assim: contraditória e faminta de explicações intangíveis, delirante em cada verso por decifrar, libertadora de sensações e crenças inimagináveis. Simplesmente, poesia...

5 comentários:

Óscar Costa disse...

Quando escrevo nada mais surge senão o meu pensamento, puro e único naquele momento. É uma experiência extra-corporal. Deixo de ser eu e passo a ser Eu. Um Eu diferente daquele que come, bebe, dorme. O Eu que te falo é mais único, mas atrevido, mais sentido. Quando escrevo nada importa, senão o que é importante, que é o que me faz rir, chorar, pensar, enfim sentir profundamente. Gostava de concordar contigo e dizer que me sinto livre quando escrevo, mas não posso. Quando escrevo sinto o peso de cada palavra a passar para o papel, o peso de cada frase, de cada ideia proposta. De um instante para o outro crio um mundo muito próprio, muito meu e nele fico preso. Nem que seja por uns breves instante fico ali preso naquele mundo, naqueles versos. Acabo a criação, a escrita vertiginosa e releio sendo tudo menos altruísta. Creio que sou até egoista e convencido quando releio o que acabei de escrever. Parece-me uma obra de arte, algo que vem de dentro de mim e como tal só pode ser bom. A sensação é boa e pena, só dura alguns segundos. Deixo a minha criação e volto a ser o eu de sempre. Mas mais tarde quando volto a pegar naquilo que escrevi e leio é como se voltasse a ficar preso naquelas palavras. Como se o meu Eu comunicasse alguma coisa como o meu eu normal. Por vezes não gosto do que leio e sou rude comigo próprio. E agindo como um crítico impiedoso penso que seria melhor apagar tudo, rasgar a folha e não voltar a pegar numa caneta. Mas não o consigo fazer. Não consigo sair da prisão do mundo que criei. Não consigo acabar com aquele mundo. É como um vício. E não tarda quero voltar outra vez a criar, a escrever, quero voltar a estar no mundo que é mEu. Se calhar tudo isto te parece uma loucura. Um caso sério de dupla personalidade... Mas se o for pois que seja. Quero ser louco todos os dias.

A inspiração não é mais que um tremor de terra
Um sussuro murmurado ao ouvido
Que depressa se torna num grito que berra
E por momentos me vejo enlouquecido
Como que noutro mundo perdido
Mas logo surge a criação
e outro capítulo se encerra.

Obrigado pelo teu comentário. Espero que gostes do meu.
Saudações poéticas amiga. =)

Fernando Rozano disse...

a escrita sempre se entranhando e, muitas vezes, é simplesmente poesia...reflexão muito densa e rica. meu abraço.

Lisete Freitas disse...

Olá Amiga =).
Bem ao ler este texto fiquei com alguns arrepios... Quem me derá ter este dom que é da escrita... Tu tens e sabes aproveitar. Gosto muito da maneira como escreves; continua assim...
Que eu estarei aqui para ler estes teus lindos poemas...
Muitos beijinhos ;)

Tentativas Poemáticas disse...

Pois é, amiguinha, até a prosa não consegue deixar de ser poética.
"Simplesmente, POESIA..."

"O Poeta é um fingidor..."

FINGIDOR

Era tão novo: eu sonhei!
E fingi no peito uma dor
E com ela eu acordei.
Estarei a ser fingidor?

Tornando assim a fingir
Teimo não querer aceitar
Tudo aquilo que a dormir
Também eu finjo ao acordar

O meu sonho fingimento
O despertar desalento
O querer fingir regeitar

Finjo ser velho e cansado
Finjo não estar acordado
Finjo saber ainda amar!...

Bom fim-de-semana
Um abraço para a Madeira
Beijinho com ternura
António

Bill Stein Husenbar disse...

Querida Natália

A poesia é o desabrochar puro e sincero das palavras.

E é dificil escrevê-la, Mas você desempenha muito bem esse papel.

Para si:

http://img152.imageshack.us/img152/362/selohs3.jpg

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/