terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Flecha fria

O rigor que acaba no vencimento de um querer
A loucura finda naquela palavra dita
Na penumbra do entardecer
Cruza o mar que se agita
A grandeza do envelhecer.

Eis a retirada parcial dos sóbrios senhores da vontade
A aura perdida daquele espanto
Que se atira às ondas da saudade
Como áureo pendor de recanto
Flecha fria sem bondade...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Costura poética

Suspiro da noite tardia
Raio de sol matinal
Que acolhe minha ousadia.

Frio querer de paixão
Louco feitio acolhedor
Que me transforma a sensação.

A ti devo minha rebeldia
Coração de fio natural
Costurado de fantasia.

A ti submeto a emoção
Com as linhas do rigor
Deste poema feito canção.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Discípulo de alguém

"Queria apelos gritados, apelos que penetrassem a humanidade num resquício de pensamento, apelos que formassem um universo de percepção requintada, onde o significado das palavras não se confinasse à articulação de meras sílabas."
Natália Bonito

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Liberdade dominada II

Aprisiona-me a dimensão estéril deste segredo,
Faz-me sentir oca no pensamento
Irreal no desenlace deste enredo
Contida na convicção do sentimento.

Não nego a vidência de um astro menor
Nem tão pouco me sujeito à perpetuação
De um regime sedutor,
Mas que querem de mim? Reacção?

Perguntou-me se estarei ciente
Desta hipnose criteriosa
Que embala a voz dolente
Com música silenciosa.

Perguntou-me se a firmação
Desta névoa por escrever
Não é somente evasão
Profundo desejo de viver.

Liberdade dominada I

"Ser inteiramente livre e, ao mesmo tempo, inteiramente dominado pela lei, é o eterno paradoxo da vida humana, de que nos apercebemos a cada momento."

Oscar Wilde

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Palavras (des)articuladas

Hoje, escrevo desde o arvoredo penetrante da selva selvagem daquela distância insular. Sufoca-me a lamúria de um parecer pouco coeso. Oiço gritos abafados, ecos desvanecidos de uma irrealidade ocular. Somente a gíria corrida desta escrita me evoca em soluços sussurrantes. Creio no critério de uma espiga por dourar, creio no lenço seco que ampara as lágrimas correntes de um rosto sofredor, creio na infinita glória de um saber periférico, creio em tudo o que possa subjugar a inglória sorte dos crentes. Porque sou assim mesmo: crente das fantasias, por muito remotas que possam parecer aos olhos incrédulos... E escrevo... Deixo-me levar pela imensidão das palavras articuladas. Porque, elas são mais que simples amarras de conexão. Elas são o futuro, a vitória conquistada ao coração, no calor ardente da alma!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ofuscante realidade

Cria-se a inutilidade
De fragmentos rígidos
Freixos claros de obscuridade
Almas doentias de convencidos
Que tomam por certa a liberdade.

Cria-se o obstáculo perfeito
Na perfeição medíocre do desalinho:
Pobres coitados, tudo está feito!
Reacção ou problema, não alinho
O critério é não ter jeito.

E se digo basta de inutilidade
Respondem-me com olhares frígidos:
Aqui não há verdade
Apenas loucos fingidos
Que ofuscam a realidade.